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Empatia vem do latim emphateia, que significa “paixão”. Nada mais é que a capacidade psicológica que temos para tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro indivíduo.

Ao menos deveríamos deveríamos ter, ou que estamos perdendo nesse mundo onde parece que carecemos da aprovação massiva a cada passo que damos. Onde nossa vida é baseada num algoritmo virtual que mostra somente coisas que nos agrada.

Diálogo e empatia: Duas palavras cada vez mais raras no dicionário da vida.

Imagine uma sala de aula. Te dou duas opções de como funcionaria a aula, escolha qual que mais te agrada:

1 – O professor entra na sala e dá sua aula. Ele instiga o debate entre os alunos, que são leigos no assunto. Eles questionam, criticam, perguntam. O professor responde a partir de todo o seu conteúdo e vivência. Fica impressionado com algumas críticas por parte dos alunos, pois nunca havia pensado sob aquele ponto de vista. A aula acaba com alunos esclarecidos, com senso crítico construído e o professor também com mais conteúdo a pensar sobre o assunto sob outras óticas.

2 – O professor entra na sala e dá sua aula. Os alunos anotam tudo calados para que possam decorar e tirar uma boa nota na prova. O professor passa a sua “verdade” e não abre espaço para perguntas, ao ser questionado repete seu conteúdo e vivência aos alunos. A aula acaba e o professor vai embora com a mesma convicção que tinha quando entrou na escola e os alunos com o conteúdo absorvidos, mas não convencidos daquilo. Todavia sabem que se replicarem o que lhes foi ensinado vão tirar boas notas na prova.

Eu imagino sua resposta (que deve ser a mesma que a minha) mas também imagino que perceba (e até defenda esse posicionamento algumas vezes) que quase 100% das discussões importantes hoje tendem ao segundo modelo. Um modelo em que duas palavras essenciais para uma boa convivência não existem: O DIÁLOGO e a EMPATIA.

No modelo 1 com certeza muitos alunos vão falar merda, isso é inevitável. Porém aposto que com o aumento do teor da discussão e observando que os outros não estão fazendo bagunça também começarão a refletir sobre.

No modelo 2 não existe a merda falada, e nem o pleno entendimento do assunto. Tanto por parte do professor, que tem somente seu ponto de vista, como dos alunos, inexperientes e sem conhecimento.

Onde reside o machismo velado, o racismo institucional, o assédio? Reside no momento que o aluno escreve o que o professor dita para tirar 10 na prova mas não consegue interpretar o conteúdo.
Escolhi essa semana para escrever sobre esse assunto pois os últimos dias foram recheados de falta de empatia em discussões como o aborto e questões políticas (já a muito tempo exemplo de falta de entendimento).

Essa falta de empatia muitas vezes externadas pelas mesmas pessoas que elogiavam a atitude contrária. A demonstração plena de empatia da torcida colombiana e dos times de futebol do Brasil para com a tragédia da Chapecoense.

E o que isso tudo tem a ver com minha viagem?

TUDO!

Infelizmente a falta de empatia não é um problema do Brasil, é um problema global.

A diferença entre os viajantes que conheci quando fiz meu primeiro mochilão (em 2009) e os de agora é gritante. A idade média das pessoas de pessoas que botam a mochila nas costas por um longo período (acima de 3 meses) gira entre 20 e 25 anos (ou seja, a 7 anos atrás eles tinham entre 13 e 18 anos) e de grande maioria Europeu.

Os mais velhos estão de férias ou alguns poucos loucos como eu tiveram a coragem de largar tudo e ir para o mundo.

Em 2009 a idade média era a mesma (eu estava dentro dela inclusive) porém não existiam smartphones e GPS. Facebook só no desktop e nem os milhares de apps que temos hoje.

As pessoas conversavam, e ao conversar expunham suas diferentes opiniões sobre culturas e lugares. Era o DIÁLOGO acontecendo, que enriquecia sua viagem e seu modo de ver as coisas. Hoje estão todos com a cara em seus celulares, é difícil dar um simples “oi”.

Não estou falando que também não faço isso, muitas vezes me pego sendo um deles. Porém o que mais sinto falta é da discussão divergente. Daquelas que saem faíscas, que te fazem pensar.

O que resta são diálogos aprovando o que você fez, são os likes pessoais.

Sob o meu ponto de vista (sei que muitos amigos irão discordar) isso influencia seriamente na maneira em como se trata o ambiente em que você está inserido.

Como você está virtualmente conectado ao seu próprio mundo (sua cidade, amigos e cultura) é mais fácil de manter sua redoma de proteção e assim não sentir a necessidade de se botar na pele do outro. Principalmente quando esse outro cresceu em uma realidade beeeeem diferente da sua.

Acho válido citar alguns exemplos que vivenciei de perto:

  • Pechinchar ao máximo algo já muito barato com um artesão boliviano que com certeza precisa muito mais daqueles centavos que você (não estou criticando a negociação quando o valor está inflacionado, mas sim quando ele já está justo ao trabalho).
  • Roubar pequenos itens de artesãos na rua e se vangloriar disso.
  • Viver 6 meses estudando em outro país e não se dar ao trabalho de aprender um pouco de sua língua e cultura.
  • Tocar algum instrumento ou fazer alguma apresentação artística em uma praça onde deficientes e pessoas sem condição de trabalhar estão competindo com você pela esmola…

Felizmente não são todos assim, e ainda é a minoria. Mas o número é crescente de pessoas que realmente (ou mais grave, inconscientemente) não se importam.

Empatia gera experiência

Vamos pensar no impacto de nossas ações na vida do próximo. Vamos nos colocar mais no lugar deles e entender o porque eles tem tal pensamento e comportamento. Vamos nos colocar em mais discussões com pessoas que divergem de nossas opiniões e buscar menos likes no Facebook.

Assim aprenderemos que o mundo é feito de mais excessões que regras. Que o “talvez” é mais comum que o “sim ou não”. Que não existe uma verdade, mas sim várias. Que em muitas ocasiões não existe o “certo” ou o “errado”, mas sim simplesmente o “diferente”.

Tiremos as coisas de caixinhas. Categorias só segregam. Ricos ou pobres, ateus ou cristãos, brancos ou negros, heteros ou homos, homens ou mulheres…antes de qualquer denominação somos pessoas. Todos com experiências de vida diferentes, todas com um universo próprio a ser descoberto e compreendido. E te garanto que o universo de cada um pode ser muito mais interessante que o universo que nos rodeia. Aquele universo que você, assim como eu, tem tanta vontade de conhecer.

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