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Iquitos é a maior cidade do mundo que não se pode chegar de carro. O acesso a cidade só pode ser feito de barco ou de avião.

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Todos sabem manejar um barco.

Bom…estava eu em Lima pensando em pegar um ônibus até a última cidade acessível e depois um barco a Iquitos, quando soube que demoraria 7 dias para tal trajeto e que o preço seria quase o mesmo de um vôo mudei de ideia.

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Vista da rua que costeia o rio

Mas porque ir a Iquitos? Uma cidade no meio da floresta amazônica que na realidade não tem muitos atrativos?

Desde o começo da minha viagem um dos meus objetivos era cruzar a Amazônia do Peru a Manaus de barco pelo rio Amazonas. Primeiro porque li histórias interessantíssimas sobre e também porque queria chegar ao Festival de Parintins (que não cheguei a tempo, vai ficar para outro ano). Mas quando comecei a viajar nem sabia que existia Iquitos e tampouco como poderia chegar lá. Fui descobrindo com o tempo.

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Vista da costa da cidade

A cultura amazônica

Iquitos é bem diferente do resto do Peru. Seus poucos prédios coloniais tem uma arquitetura mais simples, com azulejos pintados e uma pegada mais noveau, provavelmente devido a data de inauguração da cidade, que beirou o ano de 1800, quase 300 anos depois do restante do Peru.

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Azulejo que está em todos os prédios históricos

A população é formada em sua maioria por descendentes indígenas e a culinária é bem exótica. É comum encontrar no mercado de Belém (um mercado a céu aberto enorme onde você acha de tudo)  no meio de peixes e frangos carne de jacaré, tartaruga e suri, um verme gordinho que cresce dentro das árvores (lembram de Rei Leão? É aquele verme que o Timão e o Pumba adoravam).

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Suris, uma iguaria amazônica.

Embora mais raro também se pode encontrar carne de macaco para comer. Não e muito saboroso e é extremamente dura e fibrosa, mas tive que experimentar né?

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Carne de jacaré com banana assada. Prato típico da Amazônia peruana.

Apesar dos seus mais de 400.000 habitantes a cidade não é grande e pode ser percorrida tranquilamente pegando um mototáxi na rua (quase só existem mototáxis, em numero muito maior que carros privados). Eles são baratíssimos, você dificilmente vai gastar mais que 10 soles (R$ 10) em uma corrida.

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Praticamente não existe carros privados na região. Todo o transporte é feito pelos mototáxis.

A vida no meio da selva

Milhares de turistas chegam como eu com vontade de cruzar para a Colômbia ou Brasil pelo rio Amazonas (que é considerado uma das 7 maravilhas naturais do mundo). E também conhecer a floresta.

Iquitos é um bom lugar para isso. Ao redor da cidade a selva está quase intocada e existem dezenas de pacotes turísticos que oferecem dias dentro da floresta para observação da fauna e flora, além de visitas a comunidades turis(sic) indígenas que  são vendidos a precinhos salgados, porém ainda assim mais baratos que em Letícia (Colômbia) ou Manaus (Brasil).

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Dança “de boas-vindas” da tribo boro-boro. Tribo caça turista.

Na cidade há um centro de recuperação de animais que pode ser visitado e assim conhecer um pouco da fauna sem entrar na floresta. Passeios para comunidades ribeirinhas a poucos minutos de barco também podem ser feitos sem um guia e de maneira bem econômica.

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Taxistas competindo para ganhar os clientes que saem do barco.

Eu tive sorte de conhecer o Ulises, um cara que vive em Iquitos e cresceu em uma das comunidades no meio da floresta. Ele me convidou para passar um par de dias na casa de seus avós a 2 horas de barco da cidade, adentrando a floresta. Um lugar incrível, onde pude vivenciar um pouco da vida dessa gente e bem longe da exploração turística.

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Vó de Ulises preparando Masato, uma bebida feita de mandioca fermentada que tradicionalmente só pode ser preparada por mulheres.

Acampei em frente a casa dos seus avós, um barraco simples de madeira, todo aberto e sem água, luz ou banheiro. O forno era a lenha, o banho era no rio e o banheiro no matinho. Eles vivem do que plantam (principalmente mandioca) e criam (porcos, galinhas e vacas…uma delas ainda pisou na minha barraca e entortou toda ela, :P).

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Casa do tio do Ulises e o jacaré capturado.

Perto de onde vivem seus avós há uma comunidade indígena onde estão cerca de 80 famílias. Visitamos seus tios que tinham acabado de caçar um jacaré e estavam limpando o animal, seria a comida da semana. Lá experimentei uma sopa de macaco (nada gostosa). Nessas comunidades só se chega de barco e todos aprendem a manejá-lo desde criança.

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Crânio do macaco que comi.

Fomos a outra comunidade maior, onde fica a escola em que as crianças das outras tribos estudam (e vão e voltam de barco, muitas vezes navegando sozinhas). Era dia do professor e fomos convidados para as festividades.

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Estátua do gerente da comunidade

Gerador alugado para ter luz pela noite, os professores homenageados, crianças na porta do salão olhando curiosas. Comida e bebida liberada a todos. Muita dança e música em uma comunidade que pelo que vi dá muita importância aos seus mestres. Fiquei bem feliz em ver aquela cena, ainda mais eu vindo de um país que destrata tanto essa classe.

O turismo da Ayahuasca

Mas não só pelo interesse a selva vive o turismo de Iquitos. A cada ano cresce mais o turismo espiritual em busca da Ayahuasca, a raíz amazônica utilizada durante séculos pelos índios em seus rituais e que promete limpar seu corpo e sua alma, te fazendo enxergar seus problemas e assim poder trabalhar para saná-los.

Durante meu percurso pela América do sul conheci muita gente (principalmente europeus) que estavam viajando tanto para a Amazônia boliviana como a peruana em busca da Ayahuasca. Inclusive um grupo da República Tcheca com um Xamã tcheco que havia passado 3 meses na selva aprendendo os rituais e preparação do chá.

Os efeitos da Ayahuasca já ajudaram muitas pessoas a mudarem pontos chaves de suas vidas, inclusive dependentes químicos que largaram drogas . O perigo do turismo da Ayahuasca são as pessoas que se aproveitam da inocência dos turistas para cobrar altos preços, muitas vezes por rituais falsos e perigosos.

Várias agencias oferecem o pacote de “Ayahuasca” onde cobram até US$ 200,00 para fazer a cerimônia de uma noite. Geralmente em um lugar com um monte de gente e um “xamã” contratado. Como esse tipo de cerimônia não tem fiscalização e os xamãs não precisam de regulamentação para atuar é muito comum pessoas que não tem conhecimento sobre o chá se alto denominarem “xamãs” e administrá-los para turistas desavisados que pagam caro pela experiência.

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Filhas do Xamã da comunidades tomando banho no rio

Outro fato, esse mais importante, é que a Ayahuasca não necessariamente é alucinógena. Os índios falam que é uma planta inteligente, uma maneira de você se conectar consigo mesmo e com a natureza, a tanto tempo desconectada de nós. Ela realiza uma limpeza física e espiritual e só vai fazer com que você enxergue algumas coisas se realmente isso for necessário. Como muitos turistas vêm na expectativa de ver algo os charlatões misturam alucinógenos ao chá afim de garantir as visões. Doses mal administradas desses químicos podem levar a problemas sérios. Já foram relatadas mortes em cerimônias clandestinas de Ayahuasca e os locais falam que muitas das notícias nem são veiculadas.

Então caso queira experimentar fale com locais, com as pessoas que trabalham nos hostels da cidade e procure por um verdadeiro xamã. Ele geralmente não vai te cobrar caro, você vai ter uma cerimônia verdadeira, com pouca gente e a segurança de que o que você está tomando é realmente Ayahuasca.

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Tomando banho de rio no meio da Amazônia peruana, em Iquitos.

A Amazônia é mágica e uma ótima maneira de se reconectar com a natureza e assim se reenergizar. Um simples banho no rio longe da cidade já te faz refletir em como pudemos perder tal conexão. Vivendo absortos na nossa rotina no meio do asfalto ficamos aos poucos doentes. Nossa energia se esvai e isso se reflete em nossos corpos.

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Navegando pelo rio Nanay refletindo o céu amazônico.

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