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La Paz é aquele tipo de cidade do “ame-o ou odeie-o”. Destino desde turistas que buscam festas loucas regadas a cocaína barata até os interessados em suas belezas naturais, história e cultura distintas. La Paz tem uma infinidade de coisas a oferecer.

Caos, sujeira e a cultura Boliviana

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La Paz. Foto da minha viagem em 2011 pela Bolívia.

A capital administrativa da Bolívia (a verdadeira capital é Sucre) é caótica. Desde o circular das pessoas (que esbarram em você toda hora), até o transito surreal (não sei até hoje como não há um acidente a cada esquina) até a overdose de informações nas ruas e a informalidade predominante em cada barraquinha da cidade, aumentando consideravelmente os casos de infecções alimentares (quem nunca teve uma dor de barriga na Bolívia que levante a mão).

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Ruas do centro de La Paz. Quase não existem mercados pois tudo é ofertado na rua.

A distribuição da cidade é desordenada. Existe um centro histórico com prédios e ruas preservadas e o resto é resto. Tudo que cresceu depois disso o fez organicamente, sem muita ordem ou controle. Grande parte dos bairros periféricos de La Paz são verdadeiros labirintos.

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Vista da cidade a partir do bondinho indo pra o bairro El Alto

A cidade também é suja. Os bolivianos não tem a cultura de utilizar o lixeiro. As pessoas frequentemente jogam copos plásticos, latas, talheres descartáveis, embalagens, etc no chão (inclusive pela janela de carros e ônibus, sem se preocupar com quem está atrás).

O charme de La Paz

Bom..ao meu ver todo esse caos faz parte do charme da cidade. Entender o comportamento e a cultura do povo leva tempo e é muito interessante. As feiras livres são enormes e você encontra de tudo. As cholitas tem seu próprio código de compromisso. Se seu chapéu está reto na cabeça é porque é casada, se está levemente ao lado é solteira e um pouco para frente enrolada. A parte mais erótica do corpo é a batata da perna e mulheres “carnudas” são vistas como de boa saúde.

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Cholitas e suas saias de 7 véus.

Na Bolívia as mulheres também protagonizam a vida social. Apesar de ter uma cultura bem machista é comum ver cholitas independentes carregando suas coisas e trabalhando ou inclusive batendo nos maridos/namorados desobedientes no meio da rua.

A cocaína

O turismo da coca é bastante evidente em La Paz. Em qualquer festa se consegue coca barata quase tão fácil como comprar uma cerveja. É comum ver gringos cheirando por todos os cantos. Apesar de serem ilegais os “bares de cocaínas” são fáceis de se encontrar. São espécies de lounges com puffs onde pessoas vão para beber e cheirar.

A Bolívia faz fronteira com o Peru, o segundo maior produtor de cocaína do mundo (atrás somente da Colombia) e é zona de passagem da droga para Brasil, Paraguai, Argentina e Chile (faz fronteira com todos esses países). As leis mais frouxas e a informalidade facilitam a circulação da droga. Apesar de o Peru ser o produtor lá as leis são mais severas, portanto não é tão fácil de achar como em La Paz.

IMPORTANTE: Não confundir a folha de coca com cocaína. A folha é patrimônio cultural e considerada sagrada em muitos povos. Muita gente vive mascando a folha, que realmente faz um bem danado contra mal de altitude. Praticamente todos os lugares oferecem chá de coca durante as refeições. Não existem indícios de que a folha gere dependência e apesar de ser a matéria prima para a fabricação da pasta base de cocaína o princípio ativo dentro de uma folha não chega a 0,1%. Portanto para alguém alcançar o mesmo efeito da cocaína mascando folhas é necessário mascar cerca de 40kg em 1 hr (acho que ninguém faria isso, haha).

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Festa do Gran Poder. Uma das principais de La Paz que celebra o poder de Jesus (com fantasias pagãs típicas de civilizações pré-incas que habitavam a região)

O presídio de La Paz e seu atípico funcionamento

O presídio da cidade tem uma política atípica onde os presos tomam conta de tudo dentro. Entre os muros o funcionamento é como de uma província. Todas as celas ficam abertas, há comércio e até um prefeito eles elegem na base do voto democrático. Os familiares dos presos podem entrar livremente e dormir lá caso queiram. A principal fonte de renda deles é a preparação de coca. Os guardas permanecem do lado de fora fazendo a segurança para que nenhum preso saia.

Até pouco tempo atrás agencias faziam pacotes turísticos de visita dentro da prisão. Existiam muitos casos de furto de turistas e um dia um turista foi confundido com um bandido e não deixaram ele sair. Ele passou dias lá dentro até a embaixada ser contactada e tirá-lo de lá. Depois desse incidente as visitas turísticas foram proibidas.

Atrativos de La Paz

Além da prisão a cidade tem muitos outros atrativos. A feira do bairro El Alto (que se chama assim porque fica em uma montanha 500m acima do resto da cidade) é considerada a maior feira de rua do mundo e acontece todos os domingos. Basta pegar o bondinho e se divertir.

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Quer se vestir como o Evo Morales? Na feira de El Alto você encontra a solução.

No mesmo bairro são apresentadas as tradicionais lutas livres de cholitas. A Bolívia é fanática por luta livre, em todas as barraca de DVD você pode encontrar vários episódios tele-catch mexicano. A luta de cholitas é uma versão tosca e muito engraçada disso.

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Uma das coisas mais engraçadas (e toscas) que vi durante a viagem.

Caminhar pela Calle de las Brujas e conhecer as poções para prender a pessoa amada ou ter longas noites de prazer. Os mirantes da cidade mostram uma La Paz ainda mais bagunçada que a vista de baixo ( e a noite a paisagem iluminada é espetacular) também são passeios imperdíveis.

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Imagens dos deuses pré-incas no mercado das bruxas.

A feira aberta do centro oferece todo tipo de coisa a preços bem acessíveis e as grandes igrejas contém em sua fachada e em seu interior um forte e interessante sincretismo entre o catolicismo espanhol e a antiga cultura andina.

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Imagem de uma mulher parindo uma rosa. Símbolo pagão de fertilidade na fachada da Igreja de San Francisco.

Não recomendo comer nada da rua e também cuidar com a água, tomar só engarrafada e se pedir um suco ou qualquer bebida que leve água garantir a procedência. Apesar do país ter melhorado muito nos últimos anos ainda continua com um alto índice de infecções alimentares, hepatite e cólera.

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Praça central e igreja de San Francisco

Atrativos fora de La Paz

Como se já não bastasse a cidade em si os cenários ao redor de La Paz são de tirar o fôlego. No centro da cidade existem centenas de agências que fazem passeios para a Death road, Chacaltaya e Valle de La Luna. Outro lugar interessante a se visitar são as ruínas de Tiwanaco. Há outros trekkings e escaladas no meio da neve e da altitude para os mais aventureiros.

A Estrada da Morte

Death road é uma estrada que liga La Paz a Coroico. Ela tem cerca de 64 km com um declive de 1.200m. Começa a 4.650m de altitude e termina a 3.900m. A estrada toda circunda um vale e está a beira de um precipício que em algumas partes pode chegar a 300m de profundidade.

Em 1995 a Inter-American Development Bank a considerou a estrada mais perigosa do mundo, estima-se que já tenham morrido ao longo do caminho entre 200 e 300 pessoas. Nos anos 90 ela começou a se tornar um popular destino para downhill e os ciclistas começaram compartilhar o espaço com os veículos que passam pela estrada (que agora já são muito poucos). Desde que foi aberta ao turismo já faleceram 18 turistas descendo o caminho.

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Vale onde começa o downhill pela Death road. Foto de 2011

Fiz a Death Road em 2011 e recomendo. É adrenalina pura e a paisagem é sensacional. Caso ache muito perigoso pode ir devagar de bike, somente passeando. A agencias sempre disponibilizam 3 guias e um sempre estará atrás com você.

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Death road. Foto de 2011

PS: Sempre analise a qualidade das bicicletas antes de contratar a agencia, não vá só pelo preço. Lembre-se: Sua segurança em primeiro lugar.

A montanha Chacaltaya

Chacaltaya é a montanha onde existiu a estação de esqui mais alta do mundo, em 1939. Com a falta de condições para o esporte (ventos fortes, nevascas frequentes e o mal da altitude) a o resort não vingou. Hoje se contratam passeios onde uma van vai até o antigo resort e você caminha os últimos 100 m até o pico da montanha (a 5.420m). É um passeio interessante para sentir como a altitude influencia no seu corpo sem se esforçar tanto em um trekking ou escalada. Geralmente esse pacote inclui uma visita ao Valle de La Luna, que nada mais é que mais um vale que se parece com a superfície lunar (é o terceiro Valle de la Luna que passo desde o norte da Argentina).

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No topo do Chacaltaya a 5421m de altitude. Em 2011.

As ruínas Tiwanaco

Estima-se que as áreas ao redor de Tiwanacu já eram habitadas desde 1.500 A.C e que a cidade teria sido o centro cultural e cerimonial da civilização Tiwanacu durante toda sua existência.

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Portão de entrada do templo do sol. O sol se põe exatamente entre esse portão. Muitos turistas tiveram ataques epiléticos devido ao efeito do sol, então removeram essa estátua de seu lugar original e puseram em frente ao portal para quebrar um pouco a iluminação. Foto de 2011

As ruínas estão em muito bom estado e se pode observar claramente o estilo, comportamento e crenças Tiwanacu. Até hoje a população local faz cerimonias dentro do Templo de la Luna com oferendas e sacrifícios da animais a Pachamama pedindo por um bom ano de colheitas.

Bom…com tudo que escrevi acho que já notaram o quanto gostei de La Paz, tanto que visitei a cidade pela segunda vez esse ano. A cultura e o comportamento (para bem ou mal) é muito distinto e rico. É admirável como o povo boliviano ainda mantém suas raízes antigas apesar do mundo globalizado. É uma pena que a Bolívia seja um país tão pobre, fiquei feliz em constatar que a situação melhorou muito desde minha primeira visita (a 5 anos atrás), mas ainda há muito o que ser feito.

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Vista de um dos mirantes da cidade

 

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