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Saindo de Copacabana e dando a volta em meio Titicaca (trajeto que demora 5 hrs) chegamos a cidade de Puno no Peru.

Se lembram que sempre acontece algo em fronteiras? Dessa vez o carinha não foi com a minha cara e me deu um selo de 30 dias sem demais explicações. Isso iria me causar problemas mais tarde. 😛

Bom…chegando na rodoviária de Puno precisávamos achar um lugar para ficar. Uma mulher nos ofereceu um quarto triplo nesses hoteizinhos fuleiros com banho privado por 50 Soles (o mesmo em reais), daria 16 soles por pessoa, perfeito! (eu conheci duas meninas de Portugal em La Paz e viajamos juntos até Arequipa).

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Apresentação de danças típicas nas ruas de Puno.

O hotel ficava a 2 quadras da praça central, perto de tudo na cidade. Apesar de Puno ser uma das regiões mais pobres do Peru e pela proximidade com a Bolívia a diferença cultural é gritante.

O povo é mais educado, receptivo e sorridente. as ruas mais limpas e as construções melhor cuidadas. Fazia muito frio a noite e no dia seguinte foi hora de visitar a cidade e descobrir como fazer para ir as famosas ilhas flutuantes de Uros.

Puno, o lado peruano do lago Titicaca

Puno fica espremida entre o Titicaca e as montanhas ao redor da cidade. Como o espaço plano é pequeno a cidade cresceu desordenadamente para cima dos morros, gerando regiões muito pobres onde as subidas são íngremes e as ruas tampouco são asfaltadas.

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Praça central de Puno

O centro da cidade é limpo, bonito e bem conservado com uma vida noturna bem ativa. A umidade do ar é quase nula e durante o inverno com o conjunto ar frio+seco+altitude é batata pegar uma bela gripe ou ter dificuldade de respirar. Aliás o inverno em Puno é bastante frio por causa, esse ano 1 semana depois que sai da cidade teve uma forte nevasca e a temperatura chegou a -20 (foi uma excessão, mas não é raro a temperatura ficar negativa a noite).

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Mercado central de Puno

Puno tem cerca de 120.000 habitantes e a cidade basicamente vive do turismo, da pesca e da agricultura. O mercado central é pequeno mas dá para encontrar uma grande variedade de frutas e verduras, principalmente batata (o Peru, assim como a Bolívia tem mais de 90 tipos diferentes de batatas).

As ilhas flutuantes de Uros

O motivo do turismo intenso de Puno se dá pelas centenas de ilhas flutuantes do lado peruano do Titicaca. A história conta que a milênios atrás existia um povo (Uros) que se denominavam “donos do lago e da água”. Eles diziam ter o “sangue negro” porque não sentiam frio. A construção das ilhas era defensiva. Uma maneira de fugir de povos mais fortes que poderiam atacar e conquistar sua população, então sob ameaças se jogavam e navegavam em suas ilhas pois podiam viver nelas sem necessidade de voltar a terra firme durante muitos anos.

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Uma das ilhas flutuantes dos Uros feita de totora.

A cerca de 500 anos os Uros foram conquistados pelos Incas, para os quais tinham que pagar impostos e incluso prestar serviços em regime de escravidão. Os Incas impuseram sua cultura aos Uros, que gradativamente foram deixando sua língua nativa para falar Aymara (idioma falado pela população mais simples e de pequenas vilas até hoje em todo o Peru).

Como são feitas as ilhas?

As ilhas de Uros são feitas de uma planta flutuante chamada totora, abundante no Titicaca. A raiz da planta tem muito ar e serve como uma bóia natural. Depois de feita a base os Uros forram a ilha com a totora trançada fazendo o chão e ancoram em algum ponto do lago.

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Barco catando totora

A totora também é comestível e bastante nutritiva. Fazendo parte integral da dieta dos Uros.

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Além de ser a base para a construção das ilhas a Totora é alimento essencial para os Uros.

Existem cerca de 42 ilhas hoje de diversos tamanhos. A maioria hoje vive do turismo mas algumas menores e mais afastadas ainda preservam o estilo de vida antigo com subsistência a base de pesca.

A maioria dos barcos atraca na ilha central, um grande complexo extremamente turístico, o Lonely Planet a trata como a “Disneyland do Titicaca” porque mais parece uma grande feira de artesanato e apresentações da “cultura” de Uros. Se der sorte pode contratar uma agencia que navegue um pouco mais para ir até as ilhas menores, com menos gente e com um contato mais próximo e interessante com seus habitantes.

Origem do povo Uro (e o restante da civilização Andina)

Há uma teoria muito interessante sobre a origem do povo Uro assim  como grande parte da civilização andina: A chegada de japoneses ao continente milênios atrás.

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Artesanato, roupas coloridas e olhinhos puxados. Muito parecido com os japoneses.

Segundo o guia que nos levou a ilha várias palavras em Aymara tem a mesma pronuncia em japonês. As cores e a estética das roupas dos Uros realmente são bem parecidas com as tradicionais roupas orientais e isso explicaria a origem dos olhos puxados do povo. Por exemplo o nome da cidade litorânea de Arica, no Peru teria vindo da palavra japonesa “arika” que significa “Aqui estamos” pois teria sido o local onde os japoneses chegaram no Peru e o nome do lago Titicaca viria de “chichi-haha” que significa “pai-mãe” em japonês, referencia ao sagrado, como o lago era considerado pelos povos antigos. Você pode conferir um pouco mais sobre essa teoria aqui.

Ilha Taquile

A 45km de Puno no meio do Titicaca fica a ilha Taquile, que geralmente faz parte do pacote de visitação aos Uros. A população Taquileña se destaca pelo artesanato considerado um dos mais finos do Peru, principalmente pela tecelagem. É uma arte exclusiva dos homens, que aprendem a tecer a partir dos 8 anos de idade. Cabe as mulheres fazer a lã para as artesanias.

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Velho artesão taquileño. Na ilha de Taquille somente os homens trabalham com artesanato.

Os Taquileños tem um sistema coletivista de funcionamento, a base da economia é a pesca, horticultura e plantação de batatas. Eles seguem estritamente os preceitos antigos Incas de moral “Não roube, não minta, não seja preguiçoso.”

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Taquileña

Se você está vindo da Bolívia para o Peru ou fazendo o caminho contrário uma passada rápida em Puno é essencial. Conhecer de perto essas culturas tão ricas e distintas é incrível.

O turismo não sustentável está aos poucos matando a originalidade dos Uros e transformando sua cultura mais em uma encenação do que realmente era. A população de Taquile já tem uma filosofia diferente e mais sustentável sobre o turismo. A diferença é percebida nitidamente.

 

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